Crônica

O casal vivia a quarentena

O casal vivia a quarentena. Eles se exercitavam. Descobriram a beleza da vida. Eles faziam o café, o almoço, o lanche, o jantar. Aprenderam a cozinhar. Da varanda, ele via as árvores nas quadras à sua frente. Ele se questionava: que árvores são essas? A natureza mostrava sua beleza. Queria ler um catálogo da fauna, da flora, do nordeste do Brasil. Árvores cheias, com um bouquet de folhas, de flores. As pessoas enchiam os prédios à sua frente. Todos se guardavam em suas casas em tempos de isolamento. As famílias faziam quês em suas casas neste momento. Faziam sexo, assistiam Netflix, cozinhavam, dormiam, bebiam. Ele via beleza na cidade com comportamento de campo do interior. Todos confinados em suas casas.

Refletia sobre a prosperidade da economia. Na cidade, por natureza, as pessoas trabalham em atividades de serviços. Dois terços das famílias à sua frente trabalhavam nos serviços. Nos serviços de finanças, imobiliários, de advocacia, arquitetura, engenharia, administração de empresas, tecnologia da informação, saúde, educação, administração do estado. Elas podiam continuar trabalhando por três meses, de abril a junho, de suas casas. Do que precisamos para viver de imediato? De supermercados: de alimentos. De alimentos do campo. Da fauna, da flora. De tecnologia da informação para nos conectarmos. De energia. De serviços de limpeza para coletar nosso lixo. De água, de esgoto. De serviços de comunicação. De infra-estrutura de vias para a mobilidade de alimentos, medicamentos, serviços. De farmácias. De serviços de transporte. Ficam prejudicados aqueles que trabalham no atendimento de clientes em lojas. Esses devem transformar suas atividades em comercialização, em venda, de produtos, de serviços pela internet. Pessoas, empresas que vendem, entregam produtos para exercícios, barras, halteres, por exemplo, devem oferecer seus produtos em lojas na internet.

À sua frente, residiam moradores de bairros de classe de riqueza. Esses conseguiriam adaptar-se a meses de confinamento. As pessoas que viviam na pobreza sofriam. Estas pessoas lhe lembravam o futuro apregoado pelo historiador Yuval Harari em seu livro Homo Deus. Poucos conseguiriam adaptar-se ao futuro de dígitos, de autômatos, de inteligência de artifício. O que a maioria da população de seu estado poderia fazer? Sua tecnologia da informação poderia ajudá-los? Onde moram essas pessoas? O que fazem? Moram nos bairros da periferia de sua metrópole. Vendem, entregam alimentos em lojas, nas ruas, para outras pessoas, ambulando.

Ele se perguntava qual era o tempo de leitura para seus primeiros contos, artigos. Resistia a pesquisar na internet. Queria mergulhar fundo em seu ser. Queria sondar sua essência, sua intuição. Cinco minutos de leitura. Despejara um texto de três minutos. O texto teria o sentido de provocar a reflexão, a interação das pessoas. Ele tinha consciência de que o viver, amar, aprender, servir, libertar-se, felicitar-se realizava-se parte com ele, parte com a sociedade. Queria refletir com ele. Queria provocar a cooperação de criação na sociedade. Suas reflexões interessariam a outras pessoas, às pessoas dos grupos da sociedade que participava? Ele tinha um temperamento de razão encontrado na minoria das pessoas. Quem se interessaria por suas reflexões? Ele pensou em compartilhar seu texto de início em seus grupos de sociedade que, por construção, eram compostos por pessoas de interesse por seus assuntos.

Sua escrita, seu estilo, sua estrutura de texto engatinhavam. Ele queria publicar seu texto com fluência, produtividade. Equilibrar qualidade com produtividade. Sua escrita, que ele praticava nos finais de semana, guardava sinergia com sua atividade de profissão. Ele dirigia a entrega de serviços de tecnologia da informação, de sistemas de gestão de empresas, para empresas em sua região de variadas atividades da economia. Da agroindústria à administração do estado. As pessoas de sua cadeia de produção queriam refletir sobre computação, filosofia, sociedade, tecnologia? Elas queriam os produtos, os serviços, da computação, da tecnologia, da gestão de empresas. Queriam seus benefícios, na prática, diretos. Concretos.

Nosso escritor se interessava por julgar a utilidade de seus serviços de profissão. Seu pragmatismo, utilitarismo, alinhava-se com as necessidades, desejos, das pessoas de sua cadeia de produção. Sua percepção de intuição complementava a percepção de sentido da maioria de seus companheiros de sociedade no estado, no país, no mundo. Sua comunicação de abstração iria atrair leitores num mundo de maioria de guardiões, de artesãos? A maioria de guardiões, de artesãos, o compreenderia, o julgaria um cooperador na sociedade?

Sua natureza de empreendimento, criação, aventura, afeita a riscos, à criação, o motivava a ousar, arriscar. Completara 51 anos de idade. Passara da fase de libertar o pensamento para a fase de libertar o sentimento.

Lançou a sorte! Bom Caminho! Feliz Páscoa!

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