A turma de contos se distinguia da turma de crônicas. Meus colegas mostravam cara de escritor de romance. Um Dali aqui. Um compositor ali. Uma Afrodite acolá. Todos enigmáticos. Autoconfiantes. Um tomava a cerveja. Outra tomava o vinho. Outro fumava o narguilé. Um segurava o lápis.
O professor falava sobre contos contemporâneos, cenário, trama e personagens com entusiasmo. Desenhou as quatro alternativas de curso da história oculta em relação à história aparente. O iceberg pode permanecer submerso, pode emergir e submergir no meio, pode emergir na segunda metade e pode emergir no fim.
Criticamos “No Cais de Izmir”, de Ernest Hemingway, que conta a relação entre americanos, turcos e gregos na Guerra Greco-Turca. Lemos “Missa do Galo”, de Machado de Assis, que narra a atração do jovem de 17 anos pela senhora de 30. Os escritores cariocas paralisam diante dos mitos de Machado de Assis e de Lima Barreto. Ninguém lê Machado de Assis do mesmo jeito depois de viver no Rio e de conhecer o centro do Rio.
Chegou a vez de criticar nossas cenas. Disse que não nos massacraria naquele dia porque estávamos ainda nos conhecendo. Narramos, em primeira pessoa em 20 linhas, o momento em que o protagonista decide vingar-se. Olha o nível da turma. O primeiro colega pede desculpas por chegar atrasado porque estava em uma aula de ator. É escritor. Dava para ver na tela de seu computador. Contos, romances, poemas. Entrou no curso de ator para desenvolver a criação de diálogos.
O Alves contou quando o rapaz cansou de ser humilhado e vingou-se de quem o humilhava. A Mariana narrou quando a analista de mercado se frustrou com o fracasso do investimento e desafrontou quem a enganou. A Catarina contou quando a veterana descobriu que a caloura a sucedeu no caso com o professor de cardiologia e apertou o alicate no dedo da amiga. A Crislaine narrou quando a esposa flagrou o marido com a vizinha, lhe mostrou o resultado do teste de gravidez e enfiou o talo de mamona na vagina. Observei que se conta de tudo.
Contos são assim. O leitor entra no bonde andando. Não é apresentado aos personagens. Tudo acontece numa unidade de espaço e de tempo e converge para um efeito. Indaga-se no final. Reflete sobre as possíveis narrativas da história. Quem são, de onde vêm, para onde vão. Qual é a trama oculta que se passa naquele bonde que pegara há três páginas e já saltara fora.

Vc é um cronista do cotidiano, nos transmite muito sentimento.👏👏👏
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