Crônica

Escola do Mucuripe

Escritores de todo o mundo e de todos os tempos, que se encontraram em Jungfraujoch no topo da Europa durante a Segunda Guerra há 81 anos, se reencontraram na Praia do Mucuripe na beira do Atlântico durante a Primeira Pandemia ontem.

AO SOL DA MANHÃ

Brian Kernighan e Dennis Ritchie, de The C Programming Language, contaram histórias de ciência da computação e informação. Expuseram tipos, fluxo de controle, funções, ponteiros e estruturas. Propagaram:

— Não comente código ruim — reescreva-o.

— A única maneira de aprender uma nova linguagem de programação é escrevendo programas nela.

Bertrand Russell, de A History of Western Philosophy, contou histórias de filosofia e psicologia. Destacou a conexão da filosofia com as circunstâncias da política e da sociedade desde os primeiros tempos até o presente. Analisou as idéias e o contexto dos filósofos em três partes: filosofia antiga, filosofia católica e filosofia moderna. Propalou:

— A filosofia não pode provar ou refutar o dogma. A maioria dos filósofos produziu “provas” da imortalidade e da existência de Deus falsificando a lógica, tornando a matemática mística e apresentando preconceitos como intuições enviadas pelo céu. A escola de análise lógica busca verdades elementares por meio de sucessivas aproximações lógicas e empíricas, como na ciência.

João, do Evangelho Segundo São João, traduzido por Joaquim Zamith, da Bíblia de Jerusalém, contou histórias de religião. Apresentou Jesus Cristo como a luz do mundo. Revelou:

— No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a aprenderam.

Jared Diamond, de Guns, Germs, and Steel, contou histórias de ciências sociais. Destacou os destinos das sociedades humanas. Fatores de geografia e de ambiente moldaram o mundo. Sociedades avançaram do estágio de caçadores-coletores para a produção de alimentos. Desenvolveram a escrita, a tecnologia, o governo e a religião – e germes e armas de guerra – e se aventuraram no mar e na terra para conquistar e dizimar outras culturas. Desmantelou as teorias de raça. Expôs:

— Africanos e americanos perderam a supremacia para europeus por causa da flora e da fauna domesticadas e do eixo horizontal da Eurasia. Este permitia que técnicas agrícolas da Europa e da Ásia fossem compartilhadas e acelerassem o cultivo de trigo com a força do cavalo.

Nicholas Ostler, de Empires of the Word, contou histórias sobre língua. Narrou a história das grandes línguas do mundo. Celebrou:

— A maravilha das palavras une as comunidades e possibilita o viver e o contar de uma história comum, desde a resistência dos chineses durante vinte séculos de invasões à auto-estima do grego e às lutas que deram origem às línguas da Europa.

AO SOL DA TARDE

Ed Yong, de I Contain Multitudes, contou histórias de ciência. Relatou os micróbios dentro de nós e uma grande visão da vida. Mencionou:

— Em meados do século XIX, um químico chamado Louis Pasteur demonstrou que as bactérias podiam azedar bebidas, apodrecer carnes e causar doenças.

Robert Sapolsky, de Behave, contou histórias de tecnologia. Narrou a biologia dos seres humanos em nosso melhor e pior. Questionou:

— Por que fazemos as coisas que fazemos? O que acontece no cérebro um segundo antes que o comportamento aconteça? Que visão, som ou cheiro desencadeia o sistema nervoso para produzir esse comportamento? Quais hormônios agem horas ou dias antes para mudar a resposta do indivíduo aos estímulos que acionam o sistema nervoso? Quais características do ambiente, de sua infância e de seus genes afetaram seu cérebro? Como a cultura moldou seu grupo? Que fatores da ecologia e da evolução de milhares e até milhões de anos ajudaram a moldar essa cultura?

John Brierley, de A Pilgrim’s Guide to the Camino de Santiago, contou histórias de artes e recreação. Descreveu o Caminho Francês, de St. Jean, por Roncesvalles, a Santiago em 33 etapas. Descreveu a história das cidades no caminho, destacou seus monumentos e indicou alternativas de albergues, restaurantes e cafés. Instigou:

— Por que estou fazendo isto? A maioria dos que partem no caminho de Santiago dá uma razão religiosa ou espiritual para partir, mas poucos parecem empreender qualquer preparação interior consciente para a jornada.

Fyodor Dostoyevsky, de The Brothers Karamazov, traduzido por Constance Garnett, contou histórias de literatura. Tocou a mente e o coração. Teceu as sutilezas da natureza e do comportamento humano. Contou, em seu caleidoscópio de cenários, personagens e tramas, a harmonia caótica da vida humana em sociedade. Divulgou a cultura russa, cristã ortodoxa, sua relação com a Europa dos anos 1880 e a aurora de seus ares de liberdade. Narrou Alyosha:

— Em sua oração, ele não implorou a Deus que aliviasse suas trevas, ansiava pela emoção que visitava sua alma após os louvores e adoração, dos quais a oração da noite consistia. Essa alegria lhe trazia sono leve e tranquilo.

Yuval Harari, de Sapiens, contou histórias de história e geografia. Narrou a história da humanidade. Explorou as maneiras pelas quais a biologia e a história nos definiram e aprimoraram nossa compreensão do que significa ser “humano”. Perguntou:

— Seis espécies de seres humanos habitavam a Terra há cem mil anos. O homo sapiens continuou a ser e existir. O que aconteceu com os outros? O que pode acontecer conosco?

AO PÔR DO SOL

Ednardo Sousa, do Pessoal do Ceará, e eu, do Ceará, cantamos:

Eu venho das dunas brancas
Onde eu queria ficar
Deitando os olhos cansados
Por onde a vida alcançar
Meu céu é pleno de paz
Sem chaminés ou fumaça

No peito enganos mil
Na Terra é pleno abril

No peito enganos mil
Na Terra é pleno abril

Rafael Sanzio, da Basílica de São Pedro, aproveitou o instante e pintou a Escola do Mucuripe. No outro lado da rua, Michelangelo Simoni, da Basílica de São Pedro, pintou o teto da Igreja São Pedro dos Pescadores.

4 comentários

  1. Grandes livros, grandes pensadores, li os irmãos karamazov( não os brothers), li o Sapiens,o evangelho de João,os outros li fragmentos e alguns biografias dos autores. Ao longo da vida aprendi que devemos fazer nossos caminhos com orientações,navegar em mares nunca antes cartografados e sem bússola ,torna a viagem muito mais difícil e perigosa. Os escritos e a simbologia do Mucuripe local onde foi descoberto verdadeiramente a América, convida a uma reflexão e um estímulo a leitura dos textos. Parabéns , Iuri Meireles de Paula Colares, pela dica de leitura e pela mensagem motivacional do texto.

    Curtir

    1. Oi, Dô! João, Fyodor e Yuval escrevem com sabedoria e poesia. Caminhar de modo ágil, observando, orientando-se pelo pensamento e pelo sentimento, decidindo e agindo em ciclos curtos, de instantes a semanas, é libertador e inovador. Isso é mais válido ainda neste tempo de grande volume e grande velocidade de informações que vivemos. Vivemos em um tempo de vulnerabilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade. Nesse cenário, os planos dão apenas o rumo. Fiz assim meu Caminho de Santiago. Sentia a cada dia qual trilha caminhar, com quem conversar, com Deus ou com outros peregrinos, em qual café parar, até que cidade caminhar e em que albergue ficar. Estive sempre presente, sempre percebendo e sempre sentindo. Obrigado pela troca de ideias! Um abraço!

      Curtir

Deixar mensagem para Edmond Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.